Rio de Janeiro: Lamparina/Faperj, 2013

Durante dois anos Neiva Vieira da Cunha e Gabriel Feltran  coordenaram o Grupo de Trabalho “Sobre Periferias: novos conflitos no espaço público” na Anpocs (2010-2011). Mais, muito mais do que responder a um protocolo da vida acadêmica, esse grupo de trabalho terminou por operar como um polo de gravitação importante de pesquisadores que, vindos de áreas disciplinares diferentes, tratando temas variados, com abordagens igualmente múltiplas, empenharam-se em decifrar as mutações recentes pelas quais tem passado as periferias urbanas de nossas cidades. A primorosa seleção de textos que este livro nos entrega não é tão simplesmente uma coletânea de “artigos interessantes”. No cruzamento das várias pesquisas e naquilo que a escrita é capaz de fazer ver e dar forma ao que acontece nas “margens” das cidades,  vai-se desenhando as tramas multifacetadas dos mundos urbanos e é nelas que se alojam as questões e desafios que interpelam as categorias cognitivas e normativas que, por muito tempo, primaram no campo dos estudos urbanos – e das ciências sociais em geral. Como Neiva e Gabriel dizem logo nas primeiras linhas da introdução, este livro nasceu de uma “inquietação analítica”  face ao descompasso  entre a segmentação disciplinar e temática nos estudos das periferias urbanas e aquilo que os pesquisadores encontravam em seus respectivos trabalhos de campo e que transbordava, por todos os lados e, nesse sentido, implodia essas segmentações.

É uma inquietação analítica, poderíamos ainda dizer,  que se desdobra em uma aposta na importância da experimentação etnográfica que, seguindo os fios cruzados das tramas da cidade, vai descortinando as linhas de força que atravessam os mundos urbanos, vistos pelo angulo de suas “margens”. Os temas clássicos dos estudos urbanos estão todos contemplados – família, trabalho, religião, politica, violência. Porém comparecem aqui não como objetos pré-codificados de acordo com os protocolos das definições disciplinares, mas, sim, como campos da experiência social (e urbana) que os autores tratam de prospectar,  explorando a teia de relações que não cabem em fronteiras definidas, que se inscrevem em um mundo social multifacetado, que tecem e se tecem nas tramas da cidade e é justamente nelas que as periferias vão surgindo como realidades múltiplas. E é também nessas tramas que a pulsação da vida urbana se deixa ver no entrecruzamento daquilo que os pesquisadores fazem ver, trabalhando as perspectivas que se abrem a partir de seus respectivos “postos de observação”.  Mas é nisso que eu não hesitaria em dizer que essa experimentação etnográfica mostra toda a sua potência – potência cognitiva, potência crítica – justamente por esse empreendimento que, atento às “histórias minúsculas” de que é feita a vida social, nos permitem entender algo dos ordenamentos sociais que vem sendo produzidos, entre conflitos e acomodações, violências e acordos normativos, entre capturas e linhas de fuga, bloqueios e potências, no cenário de nossas cidades.

 

Vera da Silva Telles

Departamento de Sociologia da USP

Laboratório de Pesquisa Social, LAPS-USP

 

 

 

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