Ciclo de seminários, 2015

Promovido nos quadros do Laboratório de Pesquisa Social (LAPS) e do PPGS-USP, aberto a todos os alunos e pesquisadores interessados, a organização desse ciclo de seminários respondeu a um duplo objetivo: de um lado, discussão de temas transversais ao nosso Projeto (Gestão do conflito na produção da cidade contemporânea – Projeto_de-Pesquisa.pdf), contando com a exposição de especialistas em questões que nos interessa aprofundar; e de outro, criar e consolidar vínculos com pesquisadores que compõem nossa rede de interlocutores privilegiados. Os seminários foram realizados nas dependências do prédio das Ciências Sociais, USP.

15/4 – 4a feira. Reginaldo Nasser (PUC-São Paulo). “Militarização do espaço urbano: conexão entre segurança doméstica e segurança internacional”.

Resumo: a guerra é normalmente entendida como um fenômeno que reflete uma forma de organização espacial, no caso o Estado-nação territorialmente estabelecido. Mas, na história da sociedade humana, o Estado nem sempre foi baseado exclusivamente na nação: o controle do espaço urbano tem sido, muitas vezes, crucial para sua sobrevivência e, mesmo na era do Estado-nação, a guerra frequentemente girou em torno da exploração ou da captura das cidades. No final do século XX, como o sistema internacional baseado nos Estados-nação foi redefinido pela política global, a cidade novamente passou a ter centralidade nas “novas guerras”. Em meio à aceleração de fenômenos de transnacionalização e aos demais processos de globalização, a multiplicação de conflitos definidos pelo emprego de modalidades de violência organizada distintas das empregadas nas guerras entre os Estados, assim como o simultâneo declínio do número de guerras nos moldes clássicos, estabeleceram um novo padrão de conflitos transnacionais. No bojo do debate a respeito desta nova realidade e de suas implicações para os policymakers e as comunidades epistêmicas emerge a questão dos elementos sociológicos de urbanidade presentes nas novas modalidades de violência organizada.

13/5 – 4a feira. Marta Machado (FGV Direito SP, Cebrap) e Maíra Machado (FGV Direito SP). “Massacre do Carandiru + 23: inação, descontinuidade e resistências”.

Resumo: a pesquisa oferece uma breve exposição sobre os mecanismos de responsabilização individual e estatal, iniciados por diferentes autoridades do sistema de justiça após a ocorrência do Massacre do Carandiru. Retrata o elevado grau de fragmentação da atuação estatal, sua desaceleração, instabilidade e descontinuidade ao longo dessas duas décadas.

17/06 – 4a feira. Thiago Rodrigues (UFF) – Narcotráfico, Pacificação, Militarização: notas sobre a política como guerra.

Resumo: o narcotráfico, desde os anos 1970, passou a ser considerado, em concomitante instigação pela política externa dos Estados Unidos, um problema de segurança pública, nacional e regional nas Américas. No Brasil, a seletividade penal voltada tradicionalmente às ditas “classes perigosas” foi potencializada, a partir dos 1980, sob a justificativa de combater grupos do tráfico de drogas ilícitas. Com a virada do milênio, além das polícias (militar, civil e federal), as Forças Armadas passaram a ser convocadas para atuar em missões contra o narcotráfico tanto nas fronteiras nacionais quanto em grandes centros urbanos, com destaque para o Rio de Janeiro, a partir de 2010. A presença de militares é vista por muitos como indício de uma possível militarização da segurança pública, seguindo experiências como a mexicana e colombiana. Nessa comunicação pretende-se problematizar essa hipótese, atentando não apenas para aspectos formais ou jurídico-políticos, mas sim para a “conduta militar” impressa nas táticas repressivas e nas estratégias de segurança pública que existem independentemente da participação de militares e que evidenciam a conexão entre processos de pacificação urbana e a “guerra civil cotidiana continuada na política”, conforme as sugestões analíticas de Michel Foucault.

24/6 – 3a feira. Raquel Rolnik (FAU-USP). “Guerra dos lugares: a colonização da terra urbana e moradia na era das finanças”.

Resumo: tomando a década de 1990 como ponto de partida e a crise financeira atual, pretende-se oferecer um panorama global da mudança de paradigma em direção à colonização da terra urbana e da moradia pelas finanças globais. A propriedade imobiliária em geral e a habitação em particular configuram uma das fronteiras mais novas e poderosas da expansão do capital financeiro nas últimas décadas. A crença de que os mercados podem regular a alocação da terra urbana e da moradia como forma mais racional de distribuição de recursos, combinada com produtos financeiros experimentais e “criativos” vinculados ao financiamento do espaço construído, levou as políticas públicas a abandonar os conceitos de moradia como um bem social e de cidade como um artefato público. As políticas habitacionais e urbanas deixaram de ser um meio de distribuição de riqueza, bem comum que a sociedade concorda em dividir ou prover para aqueles com menos recursos, para se transformarem em mecanismo de extração de renda, ganho financeiro e acumulação individual de riqueza. Esse processo resultou na despossessão massiva de territórios e na criação de pobres urbanos “sem-lugar”, além de ter aumentado os níveis de segregação nas cidades

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